Ao longo da entrevista, Nolan também revela como A Odisseia influenciou grande parte de sua filmografia — de Batman e Interestelar a Oppenheimer ...
Ao longo da entrevista, Nolan também revela como A Odisseia influenciou grande parte de sua filmografia — de Batman e Interestelar a Oppenheimer — e explica por que acredita que a criatividade humana e o respeito entre as pessoas continuam sendo valores indispensáveis para o cinema e para a sociedade contemporânea.

P. A Odisseia é o grande poema épico de Homero que narra os acontecimentos após a Guerra de Troia. Como é uma produção que exige um orçamento enorme, Hollywood normalmente evita adaptar essa obra por causa dos riscos envolvidos. O que fez o senhor acreditar que este era o momento certo para levar essa história aos cinemas?
Tive muita sorte com o meu filme anterior. Oppenheimer foi um enorme sucesso e foi assistido por muita gente ao redor do mundo, inclusive na Coreia. Para um cineasta, isso abre portas para realizar projetos que talvez nunca fossem aprovados em circunstâncias normais.
Ao mesmo tempo, venho percebendo que, embora A Odisseia seja o mito fundador da literatura ocidental, a mitologia grega continua fascinando e emocionando pessoas há milhares de anos.
Curiosamente, nunca havia sido transformada em um grande filme moderno para as telas IMAX, por exemplo. Para um diretor, isso representa uma oportunidade extraordinária: fazer algo que nunca foi feito antes e levar o público a uma experiência cinematográfica completamente nova.
P. Hoje vivemos na chamada era da inteligência artificial. Em outra entrevista, ouvi o senhor dizer que reinterpretar e adaptar uma obra clássica como esta é um trabalho que pertence ao ser humano, não à IA. Gostaria de saber como o senhor reinterpretou A Odisseia para o público atual.
Eu não queria seguir o caminho que Hollywood costumava tomar nas décadas de 1950 e 1960, ou mesmo antes, nas décadas de 1920 e 1930. Naquela época, os filmes costumavam retratar as civilizações clássicas de uma forma excessivamente solene e distante, quase como se fossem intocáveis.
Mas essa não é a sensação que tive quando li A Odisseia. Pelo contrário. Ao ler o poema, sentimos uma conexão muito forte com aquelas pessoas, mesmo que elas tenham vivido há milhares de anos.
Por isso, meu objetivo era fazer um filme que dialogasse com o público contemporâneo, que parecesse humano, próximo, identificável e relevante para quem assiste hoje.
P. Eu assisti praticamente todos os seus filmes e, pensando sobre eles, tive uma impressão interessante. Para mim, a trilogia Batman e Oppenheimer falam sobre o peso e os conflitos de um herói. Já A Origem e Interestelar tratam da ideia de voltar para casa. E Dunkirk retrata profundamente as cicatrizes da guerra. Ao assistir A Odisseia, tive a sensação de que este filme reúne todos esses elementos e representa, de certa forma, a sua história definitiva. Estou interpretando corretamente?
Concordo plenamente.
Quando voltei a reler A Odisseia, fiquei surpreso ao perceber que não apenas Interestelar, onde eu já imaginava haver alguma influência da obra, mas também a trilogia Batman e vários outros filmes da minha carreira nasceram de temas e estruturas narrativas presentes nesse texto fundamental.
Foi uma descoberta muito empolgante. Isso me deu confiança para adaptar essa história, porque percebi que esses modelos narrativos e esses elementos dramáticos já faziam parte do meu trabalho havia muitos anos. Era como reencontrar velhos amigos. Essa conexão com o material me fez acreditar que eu realmente era a pessoa certa para contar essa história.
P. Uma das coisas que mais me impressionam nos seus filmes é a forma como o senhor explora profundamente as emoções humanas. Em A Odisseia, também achei marcante a maneira como os monstros não aparecem apenas como inimigos a serem derrotados, mas como forças que exploram as fraquezas e as tentações do ser humano. Na sua opinião, qual é a maior tentação que as pessoas enfrentam hoje? E que tipo de atitude é necessária para superá-la?
Essa é uma excelente pergunta. E também uma pergunta muito difícil.
Acredito que A Odisseia nos mostra os perigos, as armadilhas e as tentações que todos nós, como seres humanos, precisamos aprender a resistir.
Sem revelar detalhes importantes para quem ainda não assistiu ao filme — afinal, ele só estreia aqui na quarta-feira —, posso dizer que, ao final da história, percebemos que um dos conceitos mais relevantes desse antigo texto para o mundo de hoje é o princípio conhecido como Xenia. No roteiro e no filme nós nos referimos a ele como a "Lei da Hospitalidade".
Naquela época, viajar significava colocar literalmente a própria vida nas mãos de desconhecidos.
Por isso existia esse código de conduta: tratar os outros com respeito e da mesma forma como você gostaria de ser tratado, porque qualquer estranho poderia, na verdade, ser um deus disfarçado caminhando entre os homens.
Quando comecei a trabalhar na adaptação, essa ideia me pareceu muito distante da realidade moderna. Parecia algo pertencente a outra cultura, principalmente por causa de sua base religiosa e da presença constante dos deuses na narrativa.
Mas, quanto mais desenvolvíamos o roteiro e filmávamos a obra, mais percebíamos que esse princípio continua sendo um dos pilares fundamentais de qualquer civilização: o respeito mútuo.
No fundo, acredito que o filme transmite justamente essa mensagem. Quando deixamos de respeitar uns aos outros ou ignoramos esse princípio, somos nós mesmos que acabamos sofrendo as consequências.
P. Gostaria de mudar um pouco de assunto e falar sobre a parte técnica. Ouvi dizer que A Odisseia é o primeiro longa-metragem da história a ser filmado inteiramente com câmeras IMAX. Confesso que só agora percebi o tamanho impressionante dessas câmeras. Fiquei curioso: o senhor escolheu filmar A Odisseia em IMAX porque essa história exigia esse formato, ou foi justamente porque a tecnologia finalmente permitiu filmar um longa inteiro em IMAX que A Odisseia acabou sendo a obra escolhida?
Na verdade, foram as duas coisas.
Eu sonhava em fazer isso há muito tempo. Desde os meus 16 anos, quando assisti a documentários filmados nesse formato no Museum of Science and Industry, em Chicago.
Desde Batman: O Cavaleiro das Trevas, venho utilizando câmeras IMAX para registrar cenas de ação, grandes paisagens, tomadas aéreas e sequências de grande escala.
A cada filme tentávamos ampliar o uso desse formato, mas sempre existia um obstáculo: o enorme barulho das câmeras.
O negativo IMAX é gigantesco e produz uma qualidade de imagem extraordinária, mas isso também significa que uma quantidade enorme de película passa pela câmera em alta velocidade, gerando muito ruído durante as filmagens.
Quando começamos A Odisseia, sentimos que, se algum filme justificava superar esse desafio, era justamente este. Afinal, estamos falando de uma das maiores histórias já contadas.
Então procurei a equipe da IMAX. Conversei com meus amigos da empresa e perguntei: "Se existe um filme para tornar isso possível, é este. Há alguma maneira de silenciar essas câmeras para que possamos filmar cenas íntimas de diálogo?"
Além de desenvolverem uma nova geração de câmeras, eles criaram um sistema especial de isolamento acústico — uma espécie de cápsula que envolve a câmera e reduz drasticamente o ruído.
Graças a isso, conseguimos filmar cenas delicadas, com os atores muito próximos da câmera.
Claro que o equipamento continuava enorme e bastante difícil de operar. Meu diretor de fotografia e toda a equipe precisaram encontrar soluções extremamente criativas para movimentar aquela câmera gigantesca como se fosse um equipamento muito menor e mais ágil.
Mas todo esse esforço valeu a pena.
Pela primeira vez conseguimos contar uma história inteira mantendo exatamente o mesmo padrão técnico de qualidade visual do começo ao fim.
O IMAX oferece a imagem mais nítida, mais limpa e com a melhor reprodução de cores já alcançada por um formato cinematográfico. Espero que, independentemente da sala em que o público assistir ao filme, essa qualidade ajude as pessoas a mergulharem completamente dentro da história.
P. Ouvi dizer que foi um processo extremamente difícil. Depois dessa experiência, o senhor pensa em repetir esse desafio em outro filme?
Sem dúvida, eu estaria aberto a fazer isso novamente.
Durante a produção encontramos soluções para muitos dos problemas técnicos e, se voltarmos a utilizar esse processo, certamente conseguiremos aperfeiçoá-lo ainda mais.
Mas, no fim das contas, tudo depende da história que você deseja contar e da forma como pretende contá-la.
O que mais me entusiasma agora é ver o que outros cineastas farão com essa tecnologia.
Agora que ela existe e que os diretores sabem que essa possibilidade é real, espero que ela inspire novos projetos.
Meu amigo Ryan Coogler, por exemplo, já utilizou uma combinação de IMAX e película de 65 mm em seu filme mais recente. E, ainda este ano, outro grande amigo meu, Denis Villeneuve, também lançará o novo filme da série Duna utilizando essas câmeras.
O que realmente gostaria de ver é um cineasta mais jovem, pertencente a uma nova geração, usando essa tecnologia para contar uma história inteira da mesma forma que nós fizemos em A Odisseia.
P. Ainda há muita expectativa em torno do filme. Uma das características pelas quais o senhor é mais conhecido é o uso mínimo de CGI e a enorme atenção dedicada aos cenários e à direção de arte. Desta vez, porém, a história se passa no final da Idade do Bronze. Ao criar os cenários e todo o design de produção desse mundo, qual foi o aspecto ao qual o senhor deu mais importância?
Na verdade, sabemos muito pouco sobre esse período do ponto de vista arqueológico.
Por isso, começamos com uma pesquisa bastante aprofundada. Mas rapidamente percebemos que, em determinado momento, seria necessário imaginar e preencher as lacunas de forma inteligente. Era preciso observar os registros arqueológicos disponíveis e, a partir deles, construir um mundo inteiro que parecesse convincente para o público.
Minha diretora de arte, Ruth Young, que já havia trabalhado comigo em Oppenheimer, sempre parte de uma pesquisa extremamente rigorosa.
Ela começa analisando os materiais que existiam naquela época: quais estavam disponíveis, como poderiam ter sido utilizados e de que maneira poderiam ter sido transformados em roupas, armas, casas, embarcações e todos os outros elementos de que precisávamos para contar essa história.
Começamos pela pesquisa, mas depois tivemos de criar soluções plausíveis. Era uma especulação baseada em evidências, mas ainda assim uma especulação inteligente.
Além disso, queríamos que tudo tivesse um senso real de autenticidade. Queríamos colocar os atores em situações reais.
No caso dos barcos, por exemplo, precisávamos encontrar embarcações que tivessem uma estrutura e um sistema de velas semelhantes aos que poderiam existir na Idade do Bronze. Isso porque queríamos realmente levar os atores para o mar, enfrentar ondas de verdade e filmar tudo da forma mais autêntica possível.
Em todas as áreas da produção, a busca pela realidade e pela sensação de realidade foi o princípio que orientou nosso trabalho.
P. Uma curiosidade pessoal. Acho que um dos motivos pelos quais o público coreano admira tanto os seus filmes é justamente o fato de o senhor evitar o uso excessivo de CGI. Muita gente considera isso um dos grandes atrativos do seu cinema. Hoje em dia, porém, parece muito mais fácil simplesmente criar tudo por computação gráfica. É claro que essa também é uma indústria extraordinária, mas imagino que encontrar maneiras de substituir o CGI por efeitos práticos deva exigir muito tempo e dedicação. Esse processo é doloroso?
A Odisseia apresenta elementos fantásticos extraordinários, como os Ciclopes, Cila e Caríbdis.
Nosso objetivo era fazer com que essas criaturas transmitissem exatamente a mesma sensação de realidade que o restante do filme.
Por isso desafiei toda a minha equipe a descobrir maneiras de filmar o máximo possível de forma prática, utilizando computação gráfica apenas naquilo em que ela realmente é insubstituível, como integrar imagens filmadas separadamente de maneira invisível ou remover equipamentos de segurança que aparecem durante as gravações.
Mas o mais importante é que, independentemente de estarmos usando CGI, animatrônicos, marionetes ou qualquer outra técnica, tudo depende da criatividade humana.
Tudo depende de artistas.
Sejam artistas trabalhando em computadores ou construindo efeitos físicos, o essencial é que exista uma visão criativa consistente. É essa visão que me permite colaborar com pessoas talentosas para construir um mundo que pareça coeso do início ao fim.
Isso sempre foi o mais importante para mim.
No final das contas, tudo gira em torno da criatividade humana.
Talvez hoje exista uma tendência de procurar atalhos e acreditar que a inteligência artificial ou a automação possam substituir esse processo criativo.
Mas o que realmente me interessa é usar essas ferramentas ao lado de artistas, de colaboradores que tragam sua própria criatividade para o projeto.
É assim que se cria algo de que todos podem se orgulhar. Algo em que todos realmente acreditam e no qual colocam parte de si mesmos.

☁️ Cloud Insight
A tecnologia pode evoluir, mas a imaginação continua sendo humana.
Ao longo da entrevista, Christopher Nolan fala sobre IMAX, inteligência artificial, efeitos visuais e produção cinematográfica. No entanto, curiosamente, nenhuma dessas tecnologias aparece como protagonista de suas respostas.
Para Nolan, a tecnologia nunca substitui a criatividade. Ela apenas amplia aquilo que um artista já é capaz de imaginar.
Essa filosofia explica por que seus filmes continuam privilegiando locações reais, efeitos práticos e cenários construídos fisicamente, mesmo em uma época em que quase tudo pode ser criado digitalmente.
Talvez a mensagem mais importante desta entrevista não seja sobre A Odisseia, mas sobre o futuro do cinema.
Em um momento em que a inteligência artificial ocupa cada vez mais espaço nas discussões sobre a indústria criativa, Nolan lembra que grandes histórias não nascem das ferramentas, mas das pessoas que as utilizam.
No fim, câmeras mudam, softwares evoluem e novas tecnologias surgem. Mas aquilo que realmente conecta um filme ao público continua sendo algo que nenhuma máquina consegue fabricar: a visão humana.